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Centola: inclusão na Belt & Road fará diferença ao Brasil

Para co-CEO do Banco Modal e especialista em Brasil-China, empresariado nacional ainda não notou relevância da novidade.
4 MIN READJuly 03, 2019

A inclusão da América Latina na Belt and Road Initiative coloca o Brasil – país mais atrativo da região por uma questão sobretudo de escala – numa posição bastante privilegiada para direcionamento de investimentos chineses. Essa é uma diferença e tanto – que pode se revelar fundamental para o enfrentamento dos gaps brasileiros de infraestrutura –, mas que ainda não foi adequadamente percebida pelo empresariado nacional nem pela imprensa.

Quem diz é Eduardo Centola, sócio e co-CEO do Banco Modal. Por sua experiência em transações de peso nos últimos anos, que resultaram na entrada de vultosos aportes chineses no País – como o primeiro investimento direto local da State Grid –, ele se tornou um dos maiores especialistas no relacionamento bilateral. Às vésperas de embarcar novamente para o gigante asiático, desta vez para participar do GRI China-Latam Infra Summit & Week 2019, que acontece em agosto, ele recebeu o GRI Hub em seu escritório em São Paulo para uma entrevista de fôlego.

A Belt & Road Initiative é um ambicioso plano de desenvolvimento do setor de infraestrutura global para conectar a China ao restante do mundo. Anunciado em 2013 pelo presidente chinês, Xi Jinping, o programa, ano a ano, vem incorporando novos países e projetos. Em 2018, foi a vez de a América Latina ser acoplada.

Acompanhe a primeira parte da conversa do GRI Hub com Centola:


A relação Brasil-China passou turbulências logo após a eleição do presidente Jair Bolsonaro por conta de declarações polêmicas, seguidas de tentativas de aproximação – por exemplo, com a recente ida do vice-presidente, Hamilton Mourão, ao gigante asiático e o anúncio da visita de Bolsonaro planejada para agosto. Como avalia a atual gestão federal até aqui no que toca ao relacionamento bilateral e aos investimentos chineses, sobretudo em infraestrutura? 
Em geral, minha visão é positiva. Existiram algumas turbulências no começo, essencialmente por uma falta de comunicação específica sobre o assunto. Talvez o  governo Bolsonaro ainda não tivesse um conceito muito bem formado sobre como conduzir essas relações, mas, no decorrer dos últimos meses, isso foi sendo estabelecido. No princípio, havia, do lado do governo, ideias bastante claras quanto à melhoria de relações Brasil-Estados Unidos e Brasil-Israel, e ficou aparente – embora eu entenda que não tenha sido essa a intenção – que o relacionamento China-Brasil estaria em terceiro plano. [De lá para cá, ] deu-se um bom processo interno [de diálogo] com vários interlocutores – o próprio Mourão sendo uma pessoa ativa nisso e, indiretamente, também o ministro da Infraestrutura, Tarcísio [de Freitas] – no sentido de melhorar a compreensão do potencial da relação Brasil-China. Hoje, vigora na gestão federal um reconhecimento claro dessa importância. 

E pelo lado chinês, qual a percepção?
Do lado do investimento chinês, não vejo que nada tenha mudado do ano passado para cá. Houve, sim, alguns questionamentos por investidores, a fim de entender se o governo teria uma postura negativa; porém, os chineses são cautelosos para tomar decisões drásticas de curto prazo e preservam uma visão de médio e longo termos. Para os chineses, o Brasil está estabelecido como um parceiro comercial muito importante e, depois da inclusão no programa Belt and Road [Initiative], o País se tornou um parceiro estratégico também para investimento. Por mais que tenham ocorrido discussões reverberadas pela imprensa durante o período de troca de governo e no começo da administração Bolsonaro, os chineses continuaram examinando as alternativas de investimentos existentes e a disposição para aportes segue a mesma.

Que segmentos de infraestrutura mais chamam a atenção dos chineses no Brasil no horizonte próximo? 
Sem dúvida, a infraestrutura deve continuar sendo prioridade. O volume de investimento chinês direto nessa área é maior do que o dos demais países combinados, principalmente em energia elétrica. Agora, contudo, vamos ver crescer cada vez mais aportes em portos e rodovias, e potencialmente também em ferrovias. O programa de Belt and Road vai nos ajudar a ter um papel diferenciado para os investidores chineses.

Vamos ver crescer cada vez mais aportes chineses em portos e rodovias...

A inclusão da América Latina na Belt and Road Initiative, em 2018, portanto faz considerável diferença na prática?
Sim. As linhas de financiamento que o próprio governo chinês vai disponibilizar para seus investidores em países participantes é diferenciada em termos e em custos. Além disso, o processo chinês de aprovação e incentivo a esses investimentos, principalmente de SOEs [state-owned enterprises], as empresas estatais, será cada vez mais dirigido a isso. O governo chinês vai dar prioridade para lugares, como o Brasil, que são parte do programa. Trata-se de uma diferença que nem a imprensa brasileira nem a maior parte do empresariado nacional percebeu. Ainda há um processo educacional pela frente. 

Nesse contexto, quais seriam as principais oportunidades para o Brasil?
As oportunidades, a curto e a médio prazos, estão em rodovias e ferrovias. O volume de investimento necessário para rodovias é algo em que vai haver inclusive capital local, pois já existem algumas concessionárias grandes e um mercado de debêntures incentivadas que ajuda investidores a entrar e participar; portanto, será um processo mais competitivo. Entretanto, quando olhamos para o universo de ferrovias, estamos falando de investimentos muito maiores. As atuais concessionárias, sozinhas, terão dificuldade de tomar parte pela [elevada] necessidade de recursos e, portanto, a presença de capital estrangeiro vai ser fundamental. Os chineses serão os principais fomentadores desses investimentos, dados a magnitude das obras e o tempo de maturação dos aportes. Em meio a esse quadro, estamos promovendo um esforço grande de tradução – para que investidores e empresas da China compreendam as oportunidades e para que o governo brasileiro saiba da intenção e do objetivo dos chineses, e que se encontre um ponto de encontro entre oferta e demanda.

Como está o apetite dos chineses pela agenda de privatização que o presidente Bolsonaro e diversos governos locais, como o paulista, ensaiam implementar?
Os chineses observam isso desde o começo do governo Temer, quando se falou muito que novos planos se concretizariam. É preciso que de fato aconteçam. Necessitamos de um cronograma com data de abertura do data room, definição de quando os termos de licitação serão disponibilizados, para que as pessoas possam se organizar e começar a trabalhar. Já fizemos inúmeras apresentações e simulações para os chineses de todos os projetos possíveis que virão; porém, tem uma hora em que isso esgota se não houver noção exata de quando vão ocorrer.

Que planos o Banco Modal e a joint venture MDC (Banco Modal, Macquarie Capital e CCCC) têm considerando esse cenário, mirando principalmente o segundo semestre de 2019 e também 2020?
Enquanto não tivermos uma clara definição de como vão funcionar as grandes privatizações, a prioridade até o final deste ano são projetos privados: TUPs [terminais de uso privativo], que são são portos e licenças de portos privados; oportunidades derivadas do deslocamento de participação gerado pela queda de grandes construtoras; e alguns projetos mais específicos, novos, em que haja controle do cronograma. A grande mensagem que precisa ser entendida é que, para funcionar, há que se ter estabilidade de processo. Fala-se muito de estabilidade jurídica, o que é fundamental, mas atrapalha muito a especulação de que a privatização de, por exemplo, uma [licitação como a da] Ferrogrão fosse acontecer no último trimestre do ano passado, impulsionando vários consórcios a se organizar, fazer trabalhos, e ela não se dar. Esse esforço foi perdido porque terá de ser refeito, diante de uma atualização de mercado e de novas premissas. Além disso, uma vez que se anuncia um processo, não pode haver paradas no meio do caminho por uma revisão do Congresso, do TCU [Tribunal de Contas da União] ou de quem quer que seja. Se houver um plano de privatização, até mesmo sem muita agressividade, mas firme, a execução do lado do mercado investidor existe.

Entrevista concedida à editora-chefe do GRI Hub, Giovanna Carnio


Confira a segunda parte da entrevista de Eduardo Centola ao GRI Hub:
Eduardo Centola defende intercâmbio yuan/renminbi-real
 

GRI China-Latam Infra Summit & Week 2019

GRI China-Latam Infra Summit & Week 2019

Além de Eduardo Centola, diversos outros executivos e autoridades da América Latina vão a Pequim e a Xangai em agosto para participar da segunda edição do GRI China-Latam Infra Summit & Week. A semana prevê uma conferência e diversas visitas técnicas para analisar oportunidades de investimento, fusões & aquisições e colaboração com players chineses. Conheça os detalhes da programação.

 

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