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Setor elétrico inicia projeto de transações via blockchain

4 MIN READAugust 21, 2019
Com uma variedade de usos possíveis, a tecnologia blockchain começa aos poucos a adentrar no mercado privado de infraestrutura. Nos Estados Unidos, por exemplo, a LO3 Energy, uma startup de tecnologia para energia, é uma das mais reconhecidas no desenvolvimento da rede que permite aplicações descentralizadas. No Brasil, formas de adoção também estão em desenvolvimento. 

O crescimento das fontes renováveis, em especial a energia solar, e a existência de uma regulamentação apropriada foram fatores cruciais para que o Brasil fosse escolhido pela portuguesa EDP para iniciar seus testes com a inovação. A companhia é a primeira a apostar na nova rede no mercado nacional. 

"Olhamos para o mercado brasileiro e o crescente aumento da matriz energética renovável, principalmente a partir de fontes de energia solar, e entendemos que o Brasil seria o local mais adequado para esse projeto", conta Livia Brando, gestora executiva de inovação da EDP. 

Do ponto de vista regulatório, entre os aspectos considerados para a eleição, está o fomento da geração compartilhada – figura criada em 2015 pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e que possibilitou que diversos interessados, por meio de um consórcio ou de uma cooperativa, instalem uma micro ou minigeração distribuída e utilizem a energia gerada para redução das faturas dos consorciados ou cooperados.

Etapa de testes

O primeiro passo da EDP foi a realização de um estudo global sobre o potencial e tendências do uso da nova tecnologia nas distintas indústrias. Posteriormente, em caráter experimental, a companhia realizou uma prova de conceito, em parceria com uma startup austríaca, a Riddle & Code.

"Fizemos uma codificação em blockchain, usando uma etiqueta criptografada, que [naquele momento] nos parecia algo interessante para testes. Foi uma prova de conceito bem simples, em ambiente simulado e os resultados foram satisfatórios. Depois, decidimos avançar em um projeto mais robusto", continua Livia. 

Projeto em andamento

A iniciativa atual é parte de uma parceria entre a EDP e a consultoria global Accenture. Em maio, as duas empresas assinaram um memorando de entendimento (MOU, em inglês) para criar o Smart Energy Hub, um local para o desenvolvimento de novas soluções e tecnologias para o setor elétrico

A proposta faz o elo entre três players: o consumidor final, que quer comprar energia de uma fonte renovável; a distribuidora EDP, responsável pela distribuição de energia na área de concessão da rede, e o gerador solar, que é a EDP Smart, que comercializa no mercado a geração solar compartilhada.

"Para a ligação desses atores, entendemos que a aplicação seria interessante, pois, quanto maior a complexidade do case, mais sentido faz o uso do blockchain", continua a especialista.

Para a criação da solução, que atualmente acompanha a evolução regulatória do setor, foram realizadas pesquisas de mercado com clientes dos estados de São Paulo e Espírito Santo, onde a EDP concentra a sua atuação. O objetivo era entender se o público estaria propenso a aderir ao plano proposto – o fornecimento de energia renovável por meio de uma usina compartilhada. 

"Essa é uma tendência, especialmente nos grandes centros urbanos, onde as pessoas não possuem um telhado para a instalação de um painel [solar, por exemplo]. Outro ponto é que no Brasil há uma característica de alta radiação solar e, pela regulação vigente, é possível usar localizações de menor custo, em cidades do interior dos estados, para a construção de uma usina. Por isso, vemos movimentos no norte de Minas [Gerais], sinal de uma convergência entre o valor da terra, a radiação e tarifa", exemplifica a executiva. 

Em entrevista anterior ao GRI Hub, Rafael Lazzaretti, diretor de Estratégia e Inovação da CPFL Energia, reconhecia que o blockchain estaria entre as tecnologias disruptivas do mercado energético no horizonte até 2021. Elencou ele: "A geração distribuída, as baterias para armazenamento de energia e o veículo elétrico. Há ainda várias outras coisas, considerando conceitos de cidade inteligente [smart city], uso de IoT [internet das coisas], blockchain e muito mais que, num horizonte de médio prazo, talvez ainda estejamos conhecendo e testando". 

Investimento milionário

Sem revelar o montante destinado apenas a essa iniciativa, Livia Brando diz que o investimento anual da companhia em inovações é de cerca de R$ 70 milhões, em um comparativo entre 2018 e 2019. "[Do total,] Em torno de R$ 35 a R$ 40 milhões são destinados ao P&D da Aneel [Programa de Pesquisa & Desenvolvimento da agência reguladora] e o restante é destinado a outros temas próprios – o que inclui, além do blockchain, os estudos de mobilidade elétrica, robotização e programas de aceleração de startups", explica Livia. 

O direcionamento do projeto, contudo, depende ainda da decisão proveniente da consulta pública para a revisão da Resolução Normativa nº 482/2012, medida que estabeleceu o sistema de compensação de energia elétrica para os prossumidores e as regras gerais para o acesso de microgeração e minigeração distribuídas ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

"Hoje, ainda é difícil dizer se a regulação está adequada ou não, pois há diferentes interpretações – de distribuidoras, empresas de energia solar, consumidores etc. Nossa expectativa é que a regulamentação [482, atualmente em revisão] mude a partir do próximo ano, o que vai impactar no case. Por ser um novo modelo de negócio, qualquer alteração pode gerar um impacto", esclarece a gestora de inovação. 

De acordo com as regras vigentes a partir de 2020, a EDP irá adaptar a tecnologia desenvolvida para ofertá-la ao consumidor final. Além do potencial de rastreabilidade e transparência, o principal motivador para a empresa portuguesa foi a inovação. 

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